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Vale

18/09/2009 | Agnello de Mello e Silva

Reginaldo: vítima da tragédia humana

Divulgação

Agnello de Mello e Silva*

A morte do vendedor ambulante Reginaldo Donnan dos Santos Queiroz, 31 anos, assassinado por quatro bandidos travestidos de seguranças do Shopping Goiabeiras, de Cuiabá, no dia primeiro de setembro passado, é um retrato acabado de quão insignificante se tornou o valor da vida e de quão bestial é o ser humano. A brutalidade do ato que tirou a vida do rapaz só não é maior do que a futilidade que a motivou.

Ora, se Reginaldo estava incomodando, fazendo algo que atentasse contra as normas do shopping, os seguranças tinham o direito de abordá-lo, inclusive usando de força para imobilizá-lo se fosse o caso. Mas uma vez imobilizado, o rapaz deveria ser posto para fora do estabelecimento ou até mesmo entregue à polícia.

Mas não, os quatro monstros tinham a necessidade de mostrar que eram durões, precisavam dar um corretivo no rapaz. Quatro covardes a espancarem um ser humano sem possibilidade de defesa, acuado dentro de uma sala como um animal diante de seu predador.

Que barbaridade! E pensar que isso é rotina Brasil afora, inclusive, com maus policiais, que não se contentam em prender, precisam bater, bater, bater. E nós, sociedade, protagonistas da tragédia em que se transformou a humanidade, somos coniventes com isso.

Quantos de nós não diz que bandido tem mais é que apanhar mesmo? O problema é que a mão que bate em bandido, acostuma tanto a bater, que depois bate em qualquer um, seja ela bandido ou não.

Foi justamente o que aconteceu com Reginaldo. Um trabalhador que foi tratado como um marginal da pior espécie. Um ser humano que foi espancado até a morte. Uma vítima da covardia humana na sua forma mais apurada. Mais uma vida que se perdeu por conta da ignorância e estupidez dos animais que deveriam ser racionais.

A vida, que deveria ser o bem mais precioso, perdeu completamente o valor. Hoje se mata por qualquer motivo. Não temos mais valores, não temos mais moral. Antigamente bastava um olhar do pai para que o filho abaixasse a cabeça. Hoje, filhos batem nos pais.

A vida moderna trouxe coisas maravilhosas, como a internet, por exemplo, mas em compensação, corrompeu por completo a nossa decência, o nosso senso de civilidade, a nossa compaixão, a nossa caridade e o nosso amor ao próximo.

Para usufruirmos de todas as coisas boas que existem, para darmos “conforto” a nossa família, para sobrevivermos num mundo cada vez mais competitivo, passamos por cima de tudo e de todos, não temos mais tempo para educar nossos filhos.

Hoje, deixamos nossos filhos entregues à própria sorte, sendo educados pela internet, pelos traficantes. Quando eles reclamam atenção e carinho, os compramos com coisas materiais. Não temos tempo para ouvir nossos filhos, para conversar com eles. Vivemos para o dinheiro e por dinheiro. E é só isso o que importa.

Por conta disso, nascem no nosso meio monstros como Valdenor de Moraes, Jorge Dourado Néri, Edinaldo Rodrigues Belo e Jefferson Luiz Medeiros, os assassinos de Reginaldo, que sob o pretexto de protegerem os clientes de um shopping e, ao mesmo tempo, mostrarem o quanto são eficientes, agem sem qualquer tipo de limites e sem nenhum constrangimento.

Ai precisa morrer um Reginaldo, de forma estúpida, covarde, absolutamente repugnante, para colocarmos a cabeça para fora e darmos uma olhada no que está acontecendo do lado de fora do nosso mundo. Aí, ficamos chocados, nos revoltamos, escrevemos até artigos sobre tudo isso. Ufa! Acordamos?

Que nada! Depois que a imprensa parar de dar destaque ao fato, vamos simplesmente esquecê-lo, como já esquecemos tantos outros e como vamos esquecer muitos que ainda estão por vir, afinal a vida continua e temos que “correr atrás do prejuízo”.

Daqui uns dias, para nós Reginaldo será mais um número nas estatísticas da violência, enquanto familiares e amigos vão carregar para sempre a dolorosa saudade de uma pessoa que tinha uma vida inteira pela frente, mas que não teve forças para sobreviver à brutalidade do jogo selvagem em que se transformou o ato de viver.


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