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Vale

07/09/2009 | Agnello de Mello e Silva

Nós somos independentes do que mesmo?

Divulgação

Agnello de Mello e Silva*

O Brasil comemora neste dia 7 de setembro 187 anos de independência. Nesta data, em 1822, Dom Pedro deu o grito que garantiu a então colônia emancipação política e administrativa do reino de Portugal. Os detalhes do fato são controversos, cheios de lacunas e questionamentos, como também é questionável a independência do povo brasileiro.

De Portugal, de fato, ficamos livres. Mas não de algumas heranças que sobreviveram a quase dois séculos. Um exemplo é o complicado judiciário brasileiro, eivado por procedimentos internos que contribuem para a morosidade processual.

Outro é a língua portuguesa, com suas paroxítonas, pretéritos imperfeitos e um monte de regras inúteis, baboseiras que só complicam a nossa vida. Duvido que alguém consiga utilizar todas as regras gramaticais sem ter a lado um bom livro, inclusive os tais dos imortais da Academia Brasileira de Letras.

Agora, a pior herança foi sem dúvida o modelo político, que une gastança pública (até julho último a dívida pública era R$ 1,283 trilhão), jogo político que privilegia meia dúzia, segrega milhões e estabelece o conceito paternalista para as ações governamentais, que são definidas de acordo a conveniência político-eleitoral.

O Brasil ficou independente de Portugal, mas nas nossas cidades, sejam elas pequenas, médias ou grandes, a massa de miseráveis dependente da política paternalista dos governos (nos três níveis) só aumenta. E é assim que os políticos querem.

A lógica é perversa: para que dá um pão inteiro se eles (os miseráveis) se contentam com as migalhas e serão obrigados a vir buscar mais? É por isso que existem programas como o Fome Zero, Bolsa Família, Vale Gás, dentre outros. Quanto mais dependente, mas fácil um miserável é de ser manobrado. A miséria aumenta o poder dos políticos.

O Brasil ficou independente de Portugal, mas nos nossos campos milhares de miseráveis são dependentes de meia dúzia de espertos que, a pretexto de liderarem a luta pela reforma agrária, buscam satisfazer seus interesses manobrando uma massa formada por pobres coitados, que se contentam em ter um barraco de lona para morarem e uma cesta básica por mês.

Mas tem outros grupos de miseráveis. Tem os da saúde, que sofrem nas filas do SUS, os sem-tetos, que a exemplo do sem-terra servem de massa de manobra para alguns espertos, tem os da justiça, que pagam atrás das grades o preço de não terem dinheiro para um advogado, tem os da educação, já que as universidades públicas foram “tomadas” pelos ricos; dentre muitos outros.

O Brasil também não se libertou ainda dos dinossauros políticos. Aquela turma formada pelos ditos intelectuais do país e que insiste em apontar a falida ilha de Cuba como modelo de socialismo, aplaude as bravatas do maluco do Hugo Chavez (Venezuela) e apóia as ações inúteis do não menos maluco Evo Morales (Bolívia).

O Brasil ainda é dependente de políticos sérios e honestos (existem, mas em quantidade insuficiente), de uma legislação eleitoral moderna, de uma reforma tributária justa (desde jovem que escuto falar sobre isso) e de uma justiça mais ágil e (bem) menos elitista.

O Brasil é dependente de uma política para o setor de saúde que respeite o ser humano, que não imponha ao cidadão a humilhação das filas, o descaso das macas pelos corredores, a dor da morte por falta de dinheiro para um atendimento ou por descaso em algum hospital público.

O Brasil é dependente de uma política educacional que prepare nossas crianças e jovens para o mundo atual e que realmente democratize o acesso às universidades públicas, que dê ao pobre a chance de se formar sem precisar utilizar a ridícula segregação estabelecida pelo uso de cotas. Hoje, rico estuda em universidade pública e pobre, quando pode, nas particulares.

O Brasil é dependente de uma política de saneamento que contribua para a melhoria da qualidade de vida do cidadão, que evite que crianças convivam e até brinquem em valas de esgoto a céu aberto.

O Brasil é dependente de uma política de segurança onde as pessoas não precisem transformar suas casas em fortalezas, onde os pais não percam seus filhos para os traficantes, onde preto, pobre e puta sejam tratados pela polícia da mesma forma que branco, rico e madame.

O Brasil é dependente de um modelo de desenvolvimento econômico que garanta a cada cidadão o prazer de trabalhar e com o suor do seu rosto colocar comida à mesa de sua família, não precisando ficar se humilhando atrás de políticos para conseguir uma cesta básica ou então mandar suas crianças ir catar restos de comidas nos lixões das cidades..

O Brasil é dependente de um Congresso Nacional menor, sem regalias, sem gastança, com deputados e senadores que ao invés de ficarem pensando nos seus currais eleitorais e em atenderem amigos e compadres, realmente legislem, pensem em soluções para o país. O mesmo vale para as assembléias e câmaras.

O Brasil é dependente de governos (nos três níveis) que gastem menos, tenham menos regalias e que sejam ocupados por pessoas que, ao invés de investirem em ações eleitoreiras com vistas às próximas eleições e em satisfazerem os interesses de aliados políticos e empresariais, trabalhem para, efetivamente, construírem dias melhores para a população.

Como se vê, a independência de Portugal foi só uma gota no oceano. Ainda há muita coisa para se fazer para que o povo seja, de fato, aquilo que seu país é de direito: independente.

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