MATO GROSSO, 08/02/2012 - 2:08

Vale

18/08/2009 | Sem Rodeios/Opinião

Nós pagamos o whisky e a gorjeta

Agnello de Mello e Silva*

Imagino que alguma vez na sua vida você tenha visto, ao vivo ou pela televisão, repórteres tentando entrevistar alguma personalidade que chega para o embarque ou que acabou de desembarcar. Quando fui repórter do extinto Diário da Serra, em Campo Grande (MS), jornal que pertencia aos Diários Associados, vivi algumas situações dessas. Por um melhor lugar é um tal de cotovelo pra cá, canelada pra lá, empurra aqui , segura ali. É a mesma disputa de espaço que ocorre quando os jogadores estão na área esperando por um escanteio.

Pois bem, esse jogo de vale tudo também está presente nas licitações públicas, notadamente nas das grandes obras, como é o caso daquelas que integram o Programa de Aceleramento do Crescimento (PAC). O escândalo ocorrido em Cuiabá com a prisão de empreiteiros, funcionários públicos e políticos é apenas uma amostra disso.

Por envolver muito dinheiro, o processo licitatório de grandes obras é um jogo bruto, desleal, é coisa para pessoas idens, homens sem pudores, sem compaixões, sem dó e nem piedade. Nesse jogo não há amigos e nem espaço para camaradagens, apenas interesses e não só dos empreiteiros, mas de muito mais gente.

É tudo definido previamente, quem vai ganhar tal licitação, quem vai levar a outra, quem vai participar apenas para calçar, quanto vai ser pago de propina aqui e acolá. Quem já trabalhou em administração pública sabe bem do que estou falando.

O período antes de uma licitação é um verdadeiro Deus nos acuda. Reunião pra cá, ligações pra lá, articulação aqui, conchavos acolá. Nesse roteiro inclui-se dossiês, ameaças políticas e físicas, recados duros, enfim, todos os ingredientes inerentes a uma verdadeira guerra.

No Brasil, os processos de licitação são regidos pela Lei 8.666/97 (perceberam? 666, o número da besta!), mas o que vale mesmo não são as normas legais e sim os acordos fechados entre quatro paredes, entre um dose de whisky (se eu participasse dessa podridão iria querer uma boa vodka) e, em alguns casos, nos intervalos de shows de striper em uma boa casa do pecado.

Há casos de divisão de regiões por empreiteiras. A região X pertence ao fulano, a Y ao sicrano e assim por diante. É por isso que muitas vezes vemos uma única empreiteira executando todas as obras em determinada região, fato muito comum hoje em dia.

Em resumo: as licitações de grandes obras está para empreiteiros e outros interessados como sexo, drogas e rock roll estava para boa parte da juventude dos anos 70. É verdade que nem toda licitação é eivada deste vale tudo, mas com certeza 90% atende a esses “requisitos” nada recomendáveis.

Enquanto meia dúzia de barões da construção civil e uma dúzia de políticos sem escrúpulo negociam a divisão de milhões de reais, nós, os contribuintes, fazemos uma grande engenharia e uma ostensiva política de negociar os débitos vencidos para tentar sobrevivermos com aquilo que sobra depois de alimentarmos o faminto leão, fonte pagadora dos whisky e das gorjetas das meninas das casas de pecado vida.


                                            *Agnello de Mello e silva é diretor Executivo do diaadianews