07/12/2011
Onofre Ribeiro
Sete anos
é jornalista em Mato Grosso e secretário-adjunto de Imprensa da Secom-MT onofreribeiro@terra.com.br
Hoje completam sete anos que Marcelo, meu filho, morreu num acidente do moto em Salvador. Escrevo este artigo, menos pela data e mais pela experiência que está se tornando cada vez mais frequente para as famílias.
Confesso, porém, que vivenciar essa experiência é difícil e desgastante. De certo modo, a gente perde um pedaço da alma, por mais que trate o fato como uma coisa normal da vida. O laço entre pais e filhos é fortíssimo e, se quebrado, quebram junto muitas louças da prateleira. Conosco não foi diferente.
Já se passaram sete anos e nesse tempo minha mulher, Carmem, e eu temos podido apoiar muitas famílias que vivenciaram a mesma experiência de terem filhos partindo da vida mais cedo do que eles.
O IBGE divulgou na semana passada que 45% de todas as mortes no Brasil, são de jovens, e que metade delas por causas externas como acidentes, homicídios, etc. etc. Portanto, qualquer família que tenha filhos, está sujeita à mesma experiência.
Mas, o que gostaria de dizer neste artigo é que, o tempo vai passando e vão surgindo as compensações pela experiência que é tão dura no início. Tivemos na família a incorporação muito agradável da Daniela, nossa nora, e do Luka, o filho dela e do Marcelo. Ele, agora com dez anos, é uma presença agradabilíssima em nossa vida. Tem os mesmos jeitos do pai com quem conviveu apenas três anos, mas copiou tantas semelhanças. A voz, o jeito manso e decisivo, as atitudes. De certo modo ele preencheu as nossas vidas.
Amadurecemos muito emocionalmente e nos tornamos mais emotivos. Quando enfrentamos uma aresta grande, enfrentamos com clareza, porque sabemos que existem coisas piores como a partida prematura de um filho, do que qualquer outro episódio. Isso se chama tolerância.
Compreendemos que é preciso agregar mais fraternidade, mais solidariedade á vida, e ouvir as pessoas e, até mesmo, um olhar no momento certo, é consolador. Há pessoas que estão sofrendo pela falta de um afago. Um olhar pode conter um afago. Um abraço, um sorriso, uma palavra, um aperto de mão...!
Nunca poderemos nos esquecer da fantástica solidariedade que recebemos de tantas pessoas, amigas ou não, quando nosso mundo pareceu desabar com a partida do Marcelo. Assim, nos parece que adquirimos o dever eterno de devolver isso a quem precisar numa hora difícil.
Confesso que tem sido gratificante, ainda que às vezes precisemos misturar nossas lágrimas às de pessoas que sofrem essa experiência traumática. Mesmo assim, a sensação de ser útil e humano é muito enriquecedora.
Encerro este artigo reverenciando a memória sempre presente do Marcelo, próximo de completar 37 anos, a gratidão por tê-lo tido conosco por 29 anos e o agradecimento por ter nos deixado Daniela e o Luka. Acho que perdemos e ganhamos. O que, aliás, é muito bom, porque na vida ganhar e perder faz parte da rica experiência de existir. Um beijão, Marcelo!

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