17/10/2011

Simone Freire Araújo Rodrigues

Lutas em silêncio

Simone Freire Araújo Rodrigues, é professora de história, pós-graduada em história leciona no CEJA Marechal Rondon, em Jaciara/MT.

Dentro do contexto histórico dos séculos XVI a XIX, as mulheres negras e escravas foram reduzidas à condição de “máquinas vivas” para o trabalho, privadas de todos os direitos civis, sujeitam ao poder, ao domínio e à propriedade de outrem. A escravidão se caracterizou pela sujeição de um homem ou mulher a outrem, de forma tão completa, que não apenas a mulher negra escrava era propriedade do senhor, como sua vontade sujeita à autoridade do dono e seu trabalho podia ser obtido pela força. Ela podia ter vontades, mas não podia realizá – las. Foram trazidas para o Brasil para ser utilizadas na grande lavoura colonial, e esta não se preocupava em prover o sustento dos produtores, mas em produzir para o mercado. O transporte dessas mulheres, da África para o Brasil era feita de forma brutal, violenta, sem respeito, pois elas eram vistas apenas como mercadorias para serem comercializadas. O sofrimento já iniciava em sua própria terra. Arrancada de sua família, de sua comunidade onde vivia levada para os portos, lá ficava à espera da lotação do navio que a levaria através do oceano. Em seguida a viagem, em condições tão terríveis que boa parte delas morria durante a mesma: daí o apelido de tumbeiros aos navios que as transportavam. Elas eram marcadas a fogo no ombro, na coxa ou no peito, com os sinais distintos de seu proprietário ou proprietária. Logo após o embarque desciam para os porões onde, postas a ferro, ficavam amontoadas como anônimas e indistintas. A fome, a sujeira, o desconforto e a morte eram companheiros de viagens das mulheres negras e escravas. E devido ao desconforto, a falta de higiene e a falta de alimentação adequada, muitas morriam de causas variadas, porém com destaque para o escorbuto, doença causada pela falta de vitamina c. Varias dessas mulheres eram oriundas de diversas regiões do continente africano, vieram para o Brasil com o objetivo de desempenharem todas as atividades nos engenhos, cuidavam da agricultura, da pecuária, extraíam ouro e pedras preciosas, e ainda trabalhavam no serviço doméstico. As leis brasileiras davam direito ao senhor e senhora de castiga-las. O fato de ser mulher não as privou de sofrerem toda sorte de castigo, sempre que suas atitudes fossem julgadas inconvenientes. Foi nesse contexto que as mulheres negras, a partir dos 13 de maio de 1888, passaram de escravas a mulheres livres. Passaram a viver uma nova situação: o desemprego, a prostituição e a marginalidade. Durante três séculos, as mulheres negras foram feitas escravas no Brasil. A trajetória delas da África até aqui foi marcada pôr diversas formas de violência. Não vieram para cá porque quiseram. Não passaram pelo sofrimento e pela humilhação de serem tratadas como animais porque assim a preferiram. Não deixaram de ser livre porque era o melhor para elas. Não receberam chicotadas porque gostavam, mas porque resistiram. Foi, pôr fim, jogadas à liberdade. Mas que liberdade foi essa? O que mudou de lá para cá? Será que não mudou apenas a forma de opressão? Atualmente a realidade da mulher negra em comparação com a vida que levou no período colonial é outra. No passado, elas viviam submetidas ao trabalho duro, castigos e grande violência. Com o fim da escravidão, elas tornaram-se livres dos jugos impostos pelo senhor, mas não conseguiu livrar das péssimas condições de trabalho e baixa remuneração pelas quais passaram. Este artigo procurou contribuir para o repensar da participação da mulher negra escrava na construção de nossa sociedade, valorizando a memória dessas mulheres que ao longo de nossa história lutaram pôr uma sociedade mais livre, fraterna e igualitária. Onde as mulheres negras e os homens negros possam ser livres para exercer a igualdade com diferenças.



Comentários

  • Wil Freire escreve:

    Saber que um ser humano um dia passou por tudo isso... que terrivel vergonha! O humano sempre foi desumano, havendo sua excessoes. Mas o que ainda vemos hoje nao é muito diferente. O julgo que os negros, pobres, aindam levam, sao mais pesados que as conciencias daqueles que de fato deveriam fazer algo de concreto e relevante.

  • Jussara Rocha escreve:

    Desde a escolha do titulo, que achei perfeito, ao final do artigo a Profª Simone conseguiu com uma linguagem simples e direta retratar anos de desigualdades e opressões sociais sofridas pelas mulheres negras que viveram e infelizmente ainda vivem a margem da sociedade. Para refletir, debater, agir todos os verbos necessários nos dias de hoje, para situações como essas não se estendam por anos a finco. Parabéns!!!Sara....

  • Contagiante o artigo da Profª SIMONE, relatando a trajetória da mulher negra na sociedade brasileira. É um mergulho na história para esclarecer aos incautos o quanto a mulher foi discriminada e em especial a mulher negra. Dessa forma, serve de alicerce para que possamos compreender a real dívida do Estado Brasileiro para com elas. WESLEY FREIRE DE ARAÚJO.

  • muito bom sua observação, mas será que esta luta ainda continua? acho que sim, porém em formas diferenciadas.

Deixe seu comentário

Antes de escrever seu comentário, Atenção! O DIAADIA não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Processando... Aguarde

Últimas »

Enquete »

Você acha que o radar foi instalado no melhor local para reduzir acidentes ?

  • Sim
  • Não

Ajax Loader

Comentários (10) - Clique e dê sua opinião