28/09/2011
Daniel Lopes
Pequenas Igrejas, grandes negócios
Daniel Lopes reside em Cuiabá
Escrever sobre fé e crença nem sempre é fácil, pois com raríssimas exceções, as pessoas não toleram criticas à sua denominação, seita ou corrente religiosa.
Pessoalmente me sinto a vontade no tema, pois Cristão praticante que sou sempre procuro ler as escrituras sagradas e delas, somente delas tirar as lições para minha vida e minhas ações, e como quase todos os seres humanos tenho muito mais defeitos que virtudes no campo da fé. Acredito que as escrituras são de fácil interpretação humana e dispensam que algum pastor , padre, bispo , missionário ou outros portadores desses títulos humanos precisem tutelar nosso entendimento.
Em Cuiabá existe um sem numero de bairros carentes onde falta tudo, asfalto, escola, tratamento de esgoto, postos de saúde, creches etc... Estes bairros cheios de casas humildes, ainda com quase tudo por fazer, estão presentes em todas as grandes cidades Brasil afora.
Muitas vezes por força de algum compromisso vou a algum desses abandonados bairros de nossa capital e em meio à poeira e o calor modorrento dos meses que antecedem as chuvas, algo chama a atenção: por mais pobre que seja o bairro, lá está sendo erguida uma , duas e às vezes até mais igrejas; todas elas enormes, e muitas vezes no bairro inteiro a maior construção existente é uma igreja.
Ver igrejas assim pode ser um alento, pois sabemos quão necessárias elas são para a vida dessas sofridas pessoas, habitantes da desolada periferia, mas a sua presença constante em meio à tanta miséria esconde uma face triste . Nas ultimas três décadas, surgiram muitas denominações religiosas, chamadas “pentecostais”, e entrou na moda as pregações da prosperidade cristã, onde pastores, bispos, missionários e afins, se esgoelam nos cultos pregando duas coisas: que o crente não pode ter doença e tem obrigação de ser rico.
Para esses deturpadores da palavra de Deus a pobreza e a doença são coisa do diabo e não da corrupção e da ganância humana. Esses homens, meros comedores de feijão, vivem de enganar incautos, pessoas humildes que levadas pela miséria financeira e moral vão em busca de uma igreja para aproximar-se de Deus e lá se tornam presa fácil de suas visões tortas da palavra do Criador.
Nessas “Igrejas Comerciais” , existem metas de arrecadação e não metas de salvação de almas e o dinheiro arrecadado na forma do bíblico dizimo e de ofertas , é usado sem cerimônia, para a compra de fazendas, emissoras de TV, rádios, jornais, mansões, helicópteros, jatinhos e casas no exterior. Esses comedores de feijão retiram da palavra de Deus versículos bíblicos e transformam em lei nas suas igrejas com o único intuito de tirar dinheiro do bolso de seus fieis.
Olhar por alguns minutos os “tele pregadores” em suas ensaiadas performances para a TV é desconcertante. É quase inacreditável ver como pessoas com um bom discernimento das coisas, muitos até com nível educacional elevado, vão a essas igrejas dar dinheiro a esses falsos profetas, para eles, por exemplo, produzirem novelas que ensinam os filhos a responder aos pais, que mostram a traição entre casais, ou ainda pessoas tramando ardilosamente contra outros.
Há alguns anos atrás quando uma igreja comprou um grande canal de TV, imaginava-se que esse canal fosse apresentar uma programação limpa, cuidadosamente direcionada aos mais belos valores humanos, e que teria em sua programação além das pregações bíblicas é claro; alguma coisa de útil a vida do cidadão, como programas educacionais, de orientação aos jovens, prevenção à gravidez precoce e coisas assim, mas ao contrario de tudo isso, esse canal virou mais um que apresenta toda sorte de porcarias televisivas no estilo Big Brother e outros lixos culturais rastaqüeras tão em voga nos canais mais assistidos .
A pouca programação religiosa que passa , é apresentada nas madrugadas , quando o exausto pagador de impostos esta dormindo seu perturbado sono . Para que então uma igreja comprou um canal de televisão? Para promover o que sempre foi atacado por elas? Lembro-me que eu tinha um amigo evangélico que não assistia televisão por dizer que ela era coisa do capeta ,e as novelas então eram a maldição na terra.
Coitado , imagine ele saber que nos dias de hoje o dizimo dado em igrejas é usado de forma tão vil , inclusive para pagar capítulos de novelas e apresentar mulheres seminuas. Nessa balburdia existe também aqueles cristãos que vão a igreja “negociar” com Deus . Vão em busca da prosperidade financeira, nas tais “Terças-Feiras dos empresários”; “Quintas-Feiras da prosperidade” e outros títulos dados para atrair seus clientes.
Não consigo entender como alguém procura uma igreja para que Deus lhe dê um carro novo , uma viagem a Israel ou coisa assim. Deus não dá nada a ninguém , a não ser saúde para trabalhar , e serenidade para conduzir sua vida financeira. Se fosse fácil assim jamais veríamos cristãos pobres, e não cristãos ricos, ou nenhum cristão sofreria ou teria dissabores na vida, bastava ir a uma igreja e “escolher a benção”.
Essas igrejas tem sedes suntuosas que parecem palácios reais, cujo luxo e grandiosidade são comprados com ofertas e dízimos mandados por congregações miseráveis em bairros e cidades esquecidas em que o “grande líder” jamais sujará os pés. Todo bom Cristão sabe que viver neste mundo é um fardo a ser carregado por todos, cada um levando o seu é claro, e nisto reside o mistério da fé e da aceitação da vontade divina.
As riquezas acumuladas por esses falsos profetas, com suas emissoras de TV, seus helicópteros, jatinhos e mansões, são a prova incontestável de que eles são a escória da fé cristã, pois Cristo que foi o maior de todos os pregadores da palavra, o mais perfeito pastor, o que deu a vida por suas ovelhas, na sua vida nada acumulou, mas esses comedores de feijão querem a todo custo “vender” a idéia de que a prosperidade é mandamento bíblico e quem não tem prosperidade é “amaldiçoado”.
Quem escolhe pregar a palavra de Deus, sob qualquer denominação ou credo, precisa sim de dinheiro, pois o mundo é capitalista, e um templo tem de pagar luz, água, IPTU, ser limpo e conservado; seu dirigente também tem direito a salário, se for o caso um carro ou moto, e para esses, somente para esses fins, se justifica o dizimo e as ofertas, mas jamais para se proporcionar luxo e vida de nababo a seus dirigentes, ou para comprar canais de TV, fazendas, jatinhos e helicópteros.
Não ser rico não é maldição e sim conseqüência de vida e de ocorrências nas gerações passadas, e em vez de pregar essas sandices, esses homens deveriam pregar a resistência cívica de combate à corrupção, aos baixos salários e aos desmandos de tantos governantes, pois isso sim daria prosperidade igual aos homens, mas ao invés disso o que essas igrejas fazem é aliar-se aos que estão no poder, para assim melhorarem seus interesses financeiros e de poder, e é por isso que vemos senadores, deputados e vereadores “evangélicos” que nunca dizem uma só palavra contra a corrupção que deveriam combater. Historicamente a fé foi usada por todas as religiões para oprimir e tirar vantagem da miséria humana e na idade média era até “vendida” a salvação de mortos, através das Indulgencias Plenárias. Ao longo dos séculos a fé foi usada para as mais terríveis armações humanas; a Inquisição foi feita em nome da fé; as Cruzadas foram feitas em nome da fé; a catequização forçada dos indígenas mundo afora foi feita em nome da fé; foi em nome da fé que dois aviões derrubaram as torres gêmeas; é em nome da fé que Judeus e Árabes se matam todos os dias, e é em nome da fé que esses impostores amealham fortunas dos Brasileiros para montarem seu paraíso aqui na terra.
Sempre aos gritos e usando a mais vil das formas de pressão psicológica sob os que estão dentro de um templo, esses homens; meros comedores de feijão vão afastando os verdadeiros Cristão dos templos e enganando os que vão em busca de ajuda e esperança.
Bem diz o adágio popular “Fé de mais cheira mal”.

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