09/08/2011

Agnello de Mello e Silva

“Rogai por nós, os trouxas!”

Agnello de Mello e Silva é diretor do diaadianews e consultor em marketing político

A oração da Ave Maria diz: “rogai por nós os pecadores”. Com todo respeito, eu faço uma paródia: “Rogai por nós, os trouxas”. Porque é exatamente o que nós, povo brasileiro somos em relação à Copa de 2014: uns trouxas e com um detalhe: os trouxas que vão pagar a conta.
Sabe qual a estimativa de custo do Rock In Rio IV, evento que reunirá mais de 100 atrações musicais (Elton John, Metálica, Stevie Wonder, Shakira, Coldplay, Guns N’Roses, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Skank, Jota Quest, Detonautas, Capital Inicial, etc) durante sete dias? R$ 100 milhões. Custo por dia: pouco mais de R$ 14 milhões.
Sabe quanto custou a cerimônia de sorteio das eliminatórias da Copa de 2014, realizada no último sábado (30), no Rio de Janeiro? R$ 30 milhões. Pagos, lógico, com dinheiro público.
A título de comparação, para realizar evento semelhante com vistas a Copa de 2010, a África do Sul gastou, de dinheiro público, a módica quantia de R$ 2 milhões.
O Rock In Rio vai reunir alguns dos maiores nomes da música brasileira e internacional. Ocupará uma área de 150 mil metros quadrados, terá um público estimado em mais de 700 mil pessoas. E é democrático, pois qualquer um, desde que tenha o dinheiro para o ingresso, pode entrar. Em resumo: até quem recebe Bolsa Família ou aposentadoria do INSS pode ir.
E o sorteio da Copa de 2014? Reuniu cerca de 2 mil pessoas, cujo acesso só se deu por convite. Foram só os bacanas, gente de alto pedigree, endinheirados do mundo esportivo, da mídia e claro: da política e do setor da construção civil. Beneficiário do bolsa família e aposentado do INSS não vai passar nem perto.
Somos ou não uns trouxas?
Sabe quem é a diretora Executiva do Comitê Organizador Local (COL) da Copa 2014, responsável pela organização do sorteio de sábado? Joana Havelange. Ninguém menos, ninguém mais do que a filha de Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Sabe quem fez a captação dos recursos junto ao governo e prefeitura do Rio? Uma empresa ligada as Organizações Globo.
Somos ou não uns trouxas?
Num país onde se desviam as migalhas da merenda escolar, surrupiam a merreca do bolsa família e “passam a mão” na miséria da aposentadoria paga a maioria dos brasileiros (nem todo mundo é funcionário público), dá para imaginar o que vão fazer com os bilhões e bilhões de reais que serão investidos na Copa de 2014.
O Brasil é corrupto de mais para organizar um evento da magnitude da Copa do Mundo. O Brasil é corrupto de mais para se organizar um evento como as Olimpíadas, que virão em 2016. O Brasil é corrupto de mais para se fazer qualquer coisa que envolva dinheiro público.
Ah! Mas os corruptos são a minoria! Dirão os defensores de plantão (aqueles que recebem o sagrado jabazinho de todo mês, que vem a ser a propina paga aos jornalistas corruptos), fazendo-se valerem de um discurso politicamente correto, onde se admite a culpa (para fazer moral), mas tenta-se jogá-la para uma minoria.
Conversa! Lamentavelmente, os corruptos no Brasil são a maioria! Se inventasse uma máquina para detectar corruptos, poucos políticos e gestores passariam no teste. A corrupção no Brasil é endêmica. Está enraizada. É a maior praga deste país. Brasília é um grande balcão de negócios, sendo o Congresso um verdadeiro escritório de “compra e venda”, enquanto o governo, via ministérios, departamentos e autarquias, paga as faturas.
Meu Deus! Olhai por nós, porque seus filhos que deveriam olhar só olham para os extratos bancários, para as mansões que vão comprar e para as prostitutas de luxo que vão levar para a cama em orgias regadas a champagne de qualidade ímpar, uísque (com “u” mesmo) dos melhores anos e petiscando um saboroso caviar, tudo pago às custas dos trouxas.
Esta aí o caso do Dnit e do Ministério dos Transportes, atolados em denúncias de corrupção. Claro! Pagot, Alfredo Nascimento, Juquinha, tudo inocente (o Cortez da novela Insensato Coração, também!). Tudo “vítima” de armações políticas, de “adversários políticos”, daqueles que “tiveram interesses contrariados”.
Os mais de 40 mensaleiros denunciados à Justiça também se dizem inocentes. E já faz anos que esta história do mensalão está rolando, isso sem contar o escândalo dos sanguessugas. Mas uma coisa é certa: todos são filhos da mesma impunidade que campeia este país, que beneficia membros do Executivo, Legislativo e Judiciário e pune, exemplarmente, o ladrão de galinha.
Somos ou não uns trouxas?
Se a presidente Dilma Roussef tiver a mesma determinação para combater a corrupção nas obras e organização da Copa de 2014 (ainda dá tempo) que tem demonstrado para estancar a sangria no Dnit e no Ministério dos Transportes, ao final da copa eu não terei (se estiver vivo) o trabalho e o imenso desprazer de escrever um artigo intitulado: NÓS, OS TROUXAS, JÁ SABÍAMOS!




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