29/06/2011

Luiz Gonzaga Bertelli

Longe do berço esplêndido

Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, da Academia Paulista de História – APH e diretor da Fiesp.

Notícias que chegam de países da zona do euro dão conta da mobilização de milhares de pessoas em protesto contra os efeitos (e, principalmente, os remédios adotados para reverter a situação) de altos índices de desemprego, economia à beira de recessão e desconfiança na capacidade dos políticos para sair da crise.

O cenário traz aos brasileiros lembranças de fase similar por que passou o País quando, há pouco mais de duas décadas, suportava sucessivos pacotes baixados em tentativas equivocadas de domar a elevadíssima inflação e reativar a economia.

Com o Plano Real, o Brasil conquistou a sonhada estabilidade monetária e começou a pavimentar o caminho para a atual fase de retomada de bons indicadores econômicos e sociais. Mas, contrariando a letra do Hino Nacional, ainda não é hora de voltar de deitar em berço esplêndido. Tendo em vista as persistentes desigualdades sociais e os gargalos estruturais que ameaçam a sustentabilidade do crescimento, é hora, na verdade, de enfrentar para valer tais problemas.

Nessa arrancada, sem dúvida, a grande prioridade é a educação, com seus vergonhosos índices de desempenho, traduzidos em alunos que não sabem ler nem fazer contas simples.

Além da qualidade do ensino, há outro aspecto que merece atenção e que, felizmente, vem sendo atendido, ainda que parcialmente, por empresas e órgãos públicos sensíveis à problemática jovem.

Trata-se da valiosa complementação da formação acadêmica com a oportunidade de vivenciar experiência prática – um casamento que possibilita que novos talentos saiam das escolas e desembarquem no mercado de trabalho mais bem preparados para atender às demandas da nova realidade da economia, globalizada e extremamente competitiva.

Números do CIEE neste semestre que se encerra, indicam crescimento na oferta de vagas tanto para aprendizes (40% entre maio de 2011 e de 2010), quanto para estagiários (na ordem de 50%). Apesar do cenário animador, entretanto, é ainda expressivo contingente de 1 milhão de jovens à espera de convocação para processos seletivos somente no banco de talentos do CIEE.

Em paralelo, as universidades registram altos índices de evasão e vagas ociosas, enquanto planos de expansão dos setores produtivos começam a emperrar, exatamente por falta de profissionais qualificados – caso do noticiado atraso da produção nacional de iPads, porque a empresa produtora precisa contratar 400 engenheiros e só conseguiu 175. Tais questões, sim, deveriam inflar os ânimos dos brasileiros.

Empresas e órgãos públicos interessados em diminuir o déficit podem implementar ou ampliar programas de estágio e aprendizagem. O País só tem a ganhar com organizações que investem na formação de capital humano, tornando-se mais competitivas enquanto dá um valioso incentivo à educação.


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