21/06/2011

Antonio Jorge Rettenmaier

A sabedoria de um prego

Antonio Jorge Rettenmaier, Cronista, Escritor e Palestrante, membro da AGEI, Associação Gaúcha dos Escritores Independentes. Esta coluna está em mais de oitenta jornais impressos e eletrônicos no Brasil e Exterior.

Certa vez conversava com um velho amigo, velho na idade e na amizade também. Tão velho nas duas que sempre tinha uma lição de vida param contar.

Ele pregava dois pedaços de madeira, e quando um prego entortava, ele o guardava em uma latinha separada ao lado dele. Não tentava desentortá-lo e nem o jogava fora, como muitos fazem. E aquele guardar de pregos tortos, chamou minha intenção e aguçou minha curiosidade.

Ouvi então de que vinte por cento dos pregos que havia no pacote, sempre entortavam, e se pareciam com as pessoas que conhecíamos em nossa vida. E de que nada adiantavam reclamações, porque aquilo, afinal de contas, era a coisa mais natural, e assim, devia ser também encarado com a máxima naturalidade.

Segundo ele, quando o carpinteiro molha a ponta do prego com sua saliva, tem como única razão de ser, facilitar a penetração na madeira, fazer com que ela inche e depois ao voltar ao normal, se molde com firmeza em torno do prego. Nunca me preocupei em saber se é real esta hipótese, mas passei a observar depois, que todo bom carpinteiro, antes de bater o prego na madeira, passava a ponta em sua saliva, e dificilmente eles entortavam. Pelo sim, pelo não...

Mas e o hábito de guardar os pregos tortos, se de nada adiantaria reclamar? Seria mais fácil, logo dispensá-los e jogá-los fora. Pelo menos era assim que eu via a coisa. Mas ele, não.

Com voz calma, lembrou que como nos pacotes de pregos, a vida da gente também tem vinte por cento de pessoas que por um motivo ou outro se entortam conosco. Mas sendo assim, se uma pessoa é como um prego que pode se entortar, também seria mais fácil dispensá-la, eliminá-la de nossos arquivos, de nossas vidas. Ouvi então que um prego torto, se o dispensarmos, jogarmos em qualquer lugar, deixarmos no chão, mais cedo ou mais tarde, poderemos acabar pisando nele, o encontrando de novo. Jogado fora, estará pior ainda de quando entortou em nossa primeira vez, enferrujado. E assim lembrou ele, se pisarmos neste prego e ainda enferrujado, fará um mal maior do que quando entortou. Então, é melhor mesmo guardá-lo, para não se ter o risco de no futuro nele pisar e sair machucado. Guardado e vigiado, não terá no futuro, o perigo do passado.


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