30/03/2011

Emerson de Arruda

Fome de Significado

Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaciara, teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de Filosofia da Educação, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano e mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/ Campus de Rondonópolis.

Nesses últimos anos tenho percebido que muitas pessoas estão cansadas do mundo que criaram em torno de si mesmas. Muitas conquistaram sucesso, estabilidade econômica, influência nos setores políticos, militares, religiosos e títulos acadêmicos que comprovam suas habilidades intelectuais. Entretanto, apesar desse conjunto de realizações, a grande maioria, não conseguiu dar um significado real para vida.
A situação que se apresenta é paradoxal. Encontramos uma geração repleta de realizações, mas ao mesmo tempo, vazia de uma felicidade, que sobrepuje a filosofia de um século, que obedece às leis do mercado.
Essas pessoas transformaram-se em peregrinos que fazem a via-sacra pelos shoppings na tentativa de encontrar o preenchimento existencial. Lêem de maneira encantadora uma variedade de livros, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade. Recitam os poemas de Vinícius de Moraes, todavia, seus sonhos, são estrofes sem esperança. Ironizam com mesma criatividade de Fernando Sabino e finalmente, questionam a religiosidade humana, como Nitzsche no passado, e Richard Dawkins, no presente; mas ainda continuam em busca algo, apesar de suas certezas e crenças.
A pequena Mafalda, personagem das histórias em quadrinhos do cartunista argentino Quino, sempre preocupada com a humanidade, ao analisar o perfil das pessoas descritas até aqui, chegou um diagnóstico: “o mundo está doente papai”. Nesse sentido, sobre que espécie de mal estamos falando? Qual é o mal estar da modernidade ou da pós-modernidade?
O mal estar da contemporaneidade pode ser definido como, a “fome de significado existencial.” À medida que eu, como líder religioso de cunho protestante histórico-calvinista, estudo a vida humana, percebo que as pessoas carecem de um propósito que transcenda todos os conceitos, que foram dogmatizados como científicos, por um grupo seleto de pessoas.
É a partir da dimensão teológico-filosófica que o propósito da existência humana ganha os seus contornos. Fomos criados com atributos especiais, como: a racionalidade, criatividade, sensibilidade e espiritualidade, que nos distinguem dos demais seres. Essas características possibilitam a construção de uma relação saudável entre Deus e os seres humanos. O nosso ser existencial carece de uma relação alteritária com o Transcendente. Quando temos comunhão com Deus e compreendemos o seu projeto para vida humana, a carência, o medo, o consumo e angustia por mais que sejam reais, não protagonizam os contornos da nossa existência. Como um tapeceiro, Deus de modo incansável, paciente e bom vai fazendo o seu trabalho, como disse o músico João Alexandre.
Portanto, por mais que alguns critiquem ou não creiam nessa maneira de ler a realidade, ratifico que o vazio no coração humano, não será eliminado com a compreensão dos conceitos que nascem das várias correntes filosóficas, que são importantes no processo histórico-cultural, mas que, não são suficientes para responder a complexidade da vida humana.
Creio que na relação com Cristo encontramos refúgio, amizade, liberdade, esperança e paz. Diante do Mestre dos mestres nos rendemos, confessamos desejos e principalmente dúvidas, que não teríamos a coragem de contá-las em nosso gueto.
Sendo conduzidos pela sinceridade de suas palavras, arrancamos as máscaras de uma felicidade teatral e encaramos o sofrimento de cada dia; mostramos a nossa verdadeira natureza, choramos porque temos a noção, de que Ele, como Senhor da existência humana sabe, que muitas vezes, não passamos de meninos e meninas brigando por brinquedos nas sacadas de nossas casas, ou disputando a atenção da turma no rol da fama do colegial, onde lutamos para que a nossa vontade sempre prevaleça.
A fome de significado existencial que habita em cada ser humano, só desaparecerá, na medida em que Cristo aparecer de maneira especial e contínua na caminhada de cada um, produzindo mudanças essenciais, que trarão como conseqüência imediata, uma vida com propósito verdadeiro e incomum.
Vida semelhante a que Ele manifestou em sua missão, condenando a religiosidade insensível, quebrando os paradigmas sociais, culturais, raciais e rompendo com os conceitos relativistas do seu tempo. Enfim, comendo e bebendo com os pecadores, quando ninguém mais naqueles dias, teve a coragem e a sensibilidade de atravessar a rua, o gueto e dialogar com a diferença do outro lado da calçada da vida.



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