14/02/2011
Agnello de Mello e Silva
O mundo que não queremos enxergar
Agnello de Mello e Silva é diretor do diaadianews e consultor em marketing político
Um frei mantém um relacionamento amoroso e consentido com uma jovem de 16 anos há quase um ano. A polícia monitora a situação e no último dia 31 flagra o casal saindo de um motel em Várzea Grande. O religioso é preso e a delegada o indicia por estupro a vulnerável. A Justiça tem dúvidas se realmente houve crime e determina a libertação do acusado.
Esta é resumidamente a história do frei Erivan Messias que, no entendimento do advogado Ivo Aguiar Lopes Borges, manifestado em artigo veiculados na imprensa estadual, não cometeu crime algum. Posicionamento idêntico tem o criminalista Ulisses Rabaneda.
Segundo Ivo, o Código Penal caracteriza o estupro de vulnerável a prática de “conjunção carnal ou de outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”.
O crime também é caracterizado quando o ato é praticado a força, quando envolve adolescente com debilidade mental ou que esteja cercada de circunstâncias que a obriguem a praticar sexo. No caso do frei, a relação era consentida e a jovem, até que se prove o contrário, goza de perfeitas faculdades mentais.
É lógico que o caso teve repercussão nacional, principalmente por se tratar de um religioso que, de acordo com as normas da igreja, não deve ter relacionamento amoroso.
O fato é que nossa sociedade precisa de escândalos como estes para se “indignar” e assim exercitar o puritanismo e invocar uma moral que há muito deixou de existir.
Vivemos num mundo de faz de conta onde falamos uma coisa, fazemos outra e consentimos uma terceira; onde na maioria das vezes nossa indignação não coaduna com as atitudes que tomamos.
Ficamos tristes com acidentes de trânsito, mas quantos pais não entregam, irresponsavelmente, as chaves dos carros a filhos menores para que eles curtam a balada?
Quando a polícia mata um bandido, aplaudimos. “Um a menos”, costumamos dizer. Mas quando essa mesma polícia nos multa ou apreende nossos filhos menores que estão à frente de um volante, a chamamos de “truculenta e despreparada”.
Ao mesmo tempo em que condenamos o amor de um adulto por uma menor (situação que acontece desde que o mundo é mundo), fechamos os olhos para a banalização do sexo na tv e na internet (é só entretenimento).
Quer um exemplo? O Big Brother da Rede Globo. Um programa voltado para os jovens onde os participantes só faltam fazer sexo ao vivo, porque do resto, como beijos calientes e conversas pra lá de liberais, rola de tudo na telinha.
Aceitamos pacificamente a pornografia ou incentivo a ela, mas somos intolerantes com um caso de amor que, em tese, foge dos “padrões convencionais” e do conceito do “politicamente correto”.
Perdemos nossos valores. Definimos o que é certo e o errado de acordo com as nossas conveniências e não à luz da razão.
Somos um bando de hipócritas. Nos valemos de casos como os do frei para escondermos o verdadeiro mundo que estamos construindo, mas que convenientemente não queremos enxergar.

Deixe seu comentário
Antes de escrever seu comentário, Atenção! O DIAADIA não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Processando... Aguarde
Imprimir


Comentários