09/09/2009
Agnello de Mello e Silva
Veja um pouco da saga do Zé Mané da saúde
Agnello de Mello e Silva é diretor do diaadianews e consultor em marketing político
O Brasil é o país do Zé Mané. Aqui tem Zé Mané em tudo e para tudo. A maioria de nós ou é ou tem um pouco de Zé Mané. Digo a maioria porque, no caso, a minoria é formada pelos malandros (aqui, especificamente, não no sentido pejorativo da palavra). É como diz a música: “malandro é malandro, mané é mané”.
Pois bem, feito o testículo introdutório (como diriam os antigos), vou contar aqui um pouco da saga de um Zé Mané que vive na mídia, tanto local, como estadual e nacional: o Zé Mané da saúde.
Antes, é preciso esclarecer que neste setor existem dois tipos de Zé Mané: o chique, que é aquele que paga plano de saúde particular e toda vez que precisa de um atendimento de média ou alta complexidade tem que ir para a justiça; e o lascado, que é a “vítima” do tal do Sistema Único da Saúde (SUS).
O Zé Mané lascado enfrenta todo tipo de provação e humilhações. É obrigado a pegar filas, agüenta o mau humor de médicos e enfermeiros (muitas vezes eles têm lá as suas razões), espera meses por um exame, chega a esperar anos por uma cirurgia (muitas vezes a morte é mais rápida), quando consegue uma internação muitas vezes fica jogado em uma maca no corredor de um hospital. Quer mais? A lista é grande.
Isso tudo acontece quando ele dá a “sorte” de na sua cidade ter médico e não ser feriado prolongado, nem férias de junho e nem final do ano, porque nesses períodos achar um doutor de plantão é o mesmo que procurar uma agulha em palheiro. Em Jaciara mesmo as unidades dos PSF’s chegam a suspender o atendimento, transferindo tudo para o Hospital Municipal.
É dura a vida do Zé Mané lascado. Melhor seria que ele não ficasse doente, mas isso é impossível, principalmente em um país onde na maioria das cidades (e põe maioria nisso!) a qualidade de vida só existe nos discursos dos políticos.
A saga do Zé Mané começa quando ele sente alguma coisa e vai a uma unidade de saúde. Lá existem dois tipos de consulta: a boa e a padrão.
Quando a consulta no SUS é boa, a coisa é mais ou menos assim:
Depois de horas de espera, o Zé Mané chega ao doutor, que logo lhe pergunta:
— Está sentido o que?
— Tô com uma dor aqui!
Diz o paciente, apontando para algum lugar no corpo.
Ai o médico olha o mesmo de alto abaixo, pega o estetoscópio (aquele negócio de escutar o coração), põe no peito do cidadão e manda ele respirar e soltar umas 10 vezes (o que também ajuda a ganhar tempo) e depois “tira” (é assim que o povo diz) a pressão do paciente.
Feito os procedimentos, passa um exame (que vai levar meses para ser feito, isso se não for daqueles caros, porque neste caso esquece!) e receita uns medicamentos, que normalmente são sempre os que estão faltando na farmácia pública. A consulta, que demorou uns 7 minutos, acabou, mas a saga do Zé Mané ainda não.
Com a receita em mão, ele sai perambulando atrás dos políticos, normalmente vereadores, para conseguir o medicamento e tentar apressar o exame. Quando não consegue, apela para a famosa “ajuda entre amigos”, que nada mais é do a rifa (normalmente é aquela que usa uma cartela com nomes de mulheres), ou então os familiares organizam uma pastelada, galinhada, dentre outras modalidades de “adas” existentes.
Nessa questão do exame, vou contar uma historinha real.
A neta do Zé Mané aqui, a pequena Mariane, que mora em Jaciara, foi ao médico com suspeita de dengue. Como de praxe, foi solicitado que a mesma fizesse uma sorologia. Você sabe qual foi o resultado? Nem eu, nem a avó e nem os pais.
Passados mais de três meses, o resultado da sorologia ainda não chegou. Graças a Deus que a vida da Manézinha, que começou sua saga cedo, não dependeu da tal da sorologia solicitada pelo médico.
Quando a consulta é no padrão “anda logo que estou com pressa”, o paciente entra no consultório e o médico, sem levantar os olhos, pergunta:
— O que você tem?
— Tô com uma dor aqui!
Diz o paciente, apontando para algum lugar no corpo
O médico levanta um pouco os olhos, dá uma olhadela com sua visão “biônica” pra cara do sujeito e sem tocar no mesmo dá logo o diagnóstico e o tratamento:
— Você está com tal coisa, passe ali e toma uma bezetacil!
— Próximo!
Grita o médico, que normalmente está sozinho e a fila é grande. Detalhe: se bobear, a consulta não durou nem três minutos!
Santa bezetacil! O que seria dos médicos do SUS se não fosse a tal da bezetacil? Eu mesmo nunca tomei (não tomo injeção nem na bala!), mas quem já teve este “prazer” diz que o trem é bão!
Ah! E tem também o caso das cirurgias, que o paciente só consegue com rapidez se já tiver a um bom caminho do além, porque se for eletista (sem urgência), vixi! Puxe o banco, senta e espera, espera, espera até cansar! No caso especifico de laqueadura , a mulher só consegue se for em época de eleições ou particular.
É assim que funciona nosso modelo de gestão pública de saúde (o SUS), que na teoria é uma maravilha, mas na prática é um verdadeiro fracasso, inclusive no período da cobrança da CPMF, que foi criada pelos tucanos e depois, com ajuda do DEM e outros partidos, extinta por eles mesmos só para ferrar o Lula e, de quebra, piorar o que já era ruim (nada é tão ruim que não possa ser piorado!).
Voltarei ao assunto!

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