20/12/2010
Levi Machado de Oliveira
Dissonâncias da campanha eleitoral
Levi Machado de Oliveira é advogado
Há um fenômeno estranho, embora recorrente, no processo político em demandas eleitorais, muito próprio da fragilidade do sistema partidário existente no Brasil. E que se manifesta em todas as eleições, mais ou menos como na expressão popular, largamente difundida, de que na vida é Deus por todos e cada um por si. Candidatos que disputam colégios proporcionais menores reivindicam apoio de outros que, estando em evidência, postulam por cargos que reclamam mais votos, e candidatos ao legislativo, senado inclusive, estão sempre à espreita do esforço conjugado daqueles outros que disputam o executivo, desde que em condições reais ou com grandes possibilidades de vencer o pleito. Se não, e a menos que disponham de fartos recursos materiais, acabam desprezados.
Imagina-se o funcionamento de uma campanha como a estrutura de uma pirâmide. No vértice o candidato majoritário de maior abrangência territorial. Na base os candidatos às eleições parlamentares de menor proporcionalidade. Como isso é, além do mais, da regra eleitoral, parece que assim acontece normalmente. Na última disputa, os candidatos da aliança liderada pelo PT apostavam o tempo todo no apoio da presidenciável Dilma. Nada diferente, em relação a Serra, quanto aos pretendentes habilitados em sua coligação.
Mas os fatos e o corpo a corpo na busca do voto revelam que as coisas não funcionam exatamente dessa forma. De cima para baixo pode parecer que sim, pelo menos nos projetos majoritários de senador e governador. Assim mesmo quando não há disputas paroquiais entre postulantes de um mesmo espectro eleitoral. Havendo concorrência para qualquer dos cargos em disputa, o dissenso contamina o processo nos dois sentidos. A reciprocidade desaparece. Sobra o salve-se quem puder.
De baixo para cima, raramente funciona. Prevalece os interesses pessoais do candidato, a começar, como nas últimas eleições, pelos postulantes ao cargo de deputado estadual. As articulações, nesse nível principalmente, não primam pelo respeito a partidos e coligações, nem aos candidatos majoritários. Prevalece arranjos municipais e regionais ligados às questões de natureza econômica. Ideologias, programas de governo e outros quesitos dessa natureza podem até nortear o discurso público do candidato, mas não têm qualquer relevância político-eleitoral.
Todos os candidatos de partidos de uma determinada aliança, quando convém, se dizem apoiados pelo candidato de cima, mas pouco fazem no sentido de apoiá-lo efetivamente. A cada eleição, o resultado aferido confirma sempre a mesma coisa. Dilma, por exemplo, obteve no 1º turno 46,91% dos votos. A aliança formada em apoio de sua candidatura elegeu 80% das vagas em disputa para o Senado. Aqui em Mato Grosso os candidatos a senador que diziam apoiá-la obtiveram juntos 80% dos votos. Ela, no mesmo turno, obteve apenas 43%. Como explicar tamanha diferença, se todos eles reivindicavam o seu apoio?
Mato Grosso, por referência, é um caso à parte no contexto das eleições recentes. Difícil de entender a disparidade colhida nas urnas entre a votação para o senado e a de presidente da República. Em outros Estados, o resultado adverso pode ser entendido com os instrumentos lógicos e sociológicos disponíveis. Em Minas Gerais a manifestação dos eleitores se explica por fatores históricos. Mato Grosso do Sul, pela postura dos candidatos. No Paraná, o equilíbrio da disputa para governador esclarece o resultado final. Não há dificuldade em se entender nem mesmo a distribuição do voto no Rio Grande do Sul. Tudo indica que o gaúcho se amofinou com a candidatura de uma mulher. E mulher não gaúcha, sobretudo. É a sensação deixada pelo resultado local da eleição, com a distinção de um nada honroso terceiro lugar à governadora, candidata a reeleição e paulista de nascimento.
Mato Grosso, não. Com a palavra os analistas e estudiosos de plantão!

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