06/12/2010

Agnello de Mello e Silva

Os exemplos que vêm do Rio de Janeiro

Agnello de Mello e Silva é diretor do diaadianews e consultor em marketing político

 A guerra deflagrada pelos governos federal e do Rio de Janeiro contra o tráfico de drogas revela duas situações extremas com o mesmo personagem, no caso o poder público: o descaso, que permitiu que a situação chegasse onde chegou, e a certeza de que quando o poder público quer, as coisas acontecem.

O descaso do governo federal está na ausência de uma fiscalização realmente rigorosa nas nossas fronteiras, onde as Forças Armadas deveriam ter uma presença física constante e não apenas através de operações isoladas, que por serem amplamente divulgadas pela imprensa antes do seu início, acabam tendo resultados pífios.

O patrulhamento diário, a presença constante, postos de observações e fiscalizações, isso só existe no imaginário de quem mora nos grandes centros, o Rio de Janeiro inclusive, e não conhecem a realidade de perto.

É por essas fronteiras que entram, tranquilamente, as armas e as drogas que abastecem o tráfico no Rio e em várias outros estados brasileiros, o nosso inclusive. Enquanto se apreende um quilo de cocaína, outros 10 passam sem nenhum problema.

O governo deveria explicar, e convencer, a sociedade sobre qual é realmente o papel prático de nossas Forças Armadas. Milico de guarda ou cortando grama em casa de oficiais a gente vê aos montes, agora fiscalizando fronteira, isso é uma verdadeira raridade.

Quanto ao governo do Rio de Janeiro, historicamente este sempre foi complacente com o tráfico de drogas, jogo do bicho e os caça níqueis. Como dinheiro para a bandidagem não é problema, políticos e policiais corruptos se vendem e garantem uma vasta teia de proteção aos marginais, que ainda contam com bons advogados e as brechas dos arcaicos códigos Penal e de Processo Penal para se manterem livres.

Em épocas de grandes eventos, como os Jogos Pan-americanos, maqueia-se a cidade e pede-se para os bandidos darem “um tempo”. Em resumo, varre-se a sujeira para debaixo do tapete. Depois volta tudo ao normal. Deu no que deu.

O fato positivo é que a união dos dois governos mostrou e fez valer a máxima de que “contra a força, não há resistência”. Em verdade, ninguém esperava que os atentados que foram praticados pelos bandidos resultasse em uma mega-operação que colocasse os machões do crime de joelhos, impotentes ante a imponência de tanques, helicópteros, armamento sofisticado e uma tropa determinada.

Extrai-se dos episódios do Rio duas lições, que não são novas, mas que estão (ou estavam) em desuso: o mau deve ser cortado pela raiz, pois é mais barato e menos traumático, e a união faz a força. Que a reação governamental vista no Rio de Janeiro sirva de exemplos para outros estados, inclusive o nosso, onde ante o olhar complacente dos órgãos de segurança, a violência atinge níveis alarmantes.


Comentários

  • Há muito tempo que o pessoal do UnBlog vinha falando em seus textos que um dia a situação no Rio se tornaria intolerável. E foi isso que aconteceu, especialmente porque a bandidagem começou a atacar os ricos, por quantos anos a Vila Cruzeiro permaneceu em poder dos bandidos, mesmo após o bruto assassinato do jornalista Tim Lopes? A mudança talvez tenha começado depois da ocupação das favelas, mas temos que esperar um pouco mais para termos certeza. Luís Filipe tem razão.

  • A situação de descaso do poder público não é um privilegio apenas da capital do Rio de Janeiro, minha cidade também vai de mau a pior. Durante anos fomos escravos da violência desmedida dos traficantes do Rio, isso não deverá mudar muito, pois o show foi dado, com ampla cobertura de Rede Globo e Rede Record, mais só vivendo aqui que se sabe que o Rio é o que mais se parede com o inferno.

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