05/11/2010

Alecy Alves

Vulgarização do milagre

Alecy Alves é jornalista e repórter do jornal Diário de Cuiabá

Alguns segmentos religiosos estão vendendo milagres. É isso mesmo. Não é uma força de expressão dizer "vendendo", é uma verdade que podemos assistir em nossas casas a qualquer hora do dia ou da noite nos canais abertos de televisão.
Se aproveitando dos momentos de fragilidade emocional ou financeiro de famílias ou pessoas, exploradores da fé passam horas e até dias seguidos no comando de cultos usando o nome de Deus para mostrar os "milagres" que conseguiram realizar.

Expõem idosos, doentes, portandores de deficiências e fracassados financeiramente que não sabem mais o que fazer para aliviar o sofrimento.

Levam para o palco supostos cidadãos que compartilhavam de grande sofrimento e "alcançaram" o milagre da cura ou o caminho para o mapa da mina, da fortura que jamais almejaram.

No meio da multidão, a todo instante alguém se levanta e vai à frente dar um testemunho do milagre obtido. São tantos depoimentos, ou melhor, encenações teatrais, que ultrapassam o rídiculo para se transformar em vulgarização da fé e da definição de milagre.

Milagre, como sabe, é um fato considerado extraordinário que não possui uma explicação científica e não acontece assim, a rodo. Sua realização é atribuída à intervenção de Deus (ou de deuses) no curso normal dos acontecimentos terrenos.

Acredito que, como atrativo de novos adeptos e mais arrecadação para as igrejas, essas celebrações funcionam melhor que qualquer estratégia de marketing político.

Os organizadores desses eventos milagreiros são tão eficientes que, para dar veracidade aos testemunhos, chegam a espalhar pelos templos pessoas que se apresentam aos novatos como amigas daqueles que estão relatando o milagre.

Outro dia fiquei surpresa com uma amiga, profissional com formação superior e vida saúdável, dizendo que assistiu e acreditou nos milagres. Ela contou que acreditou porque havia uma amiga da mulher que recebeu o milagre, que estava ao lado dela, pulando de alegria.

Talvez o comportamento da minha amiga explique por que minha tia, com mais de 80 anos, continua entregando mais da metade da sua aposentadoria para igreja esperando pela cura das dores que a atormentam.


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