27/10/2010
Levi Machado de Oliveira
A república na hora do voto
Levi Machado de Oliveira é advogado
Por desconfortável que seja não se pode ignorar o fato de que no tempo do império o interesse publico merecia maior respeito, na comparação com alguns momentos da história republicana. Da proclamação até 1906, passaram pelo governo cinco presidentes. Nada de importante se realizou no período fora da capital federal e da província de São Paulo. A não ser o insano massacre de Canudos ordenado por Prudente de Moraes.
Se foi tarde, o império teve lá seus méritos. Legou à Republica mais de 9.500 km de trilhos ferroviários. A navegação fluvial ainda não foi melhor aproveitada. Boa parte dos portos atuais já estava em operação. Estradas, somente para carros de bois e tropas, porque veículos a motor, assim como aviões, ainda não faziam parte da história.
Cinco presidentes estiveram a frente dos destinos da nação até 1906. Dois generais, Deodoro e Floriano; e três civis: os ex~governadores de S. Paulo Prudente de Moraes, Campos Sales e Rodrigues Alves. Os dois primeiros, por razões imperativas, tiveram de cuidar apenas dos aspectos institucionais do novo regime. Os demais cuidaram dos interesses da sua província. Na visão dos oligarcas paulistas o Brasil deve ser o fornecedor de matéria prima e mão de obra para suas manufaturas. Nada mudou. Borba Gato e sua turma agiam do mesmo modo. Capturavam índios para escravizar, ouro e pedras preciosas para a grandeza de Piratininga.
Na República, o primeiro presidente a se ocupar do interesse nacional foi o mineiro Afonso Pena. Visitou todos os Estados que os meios de transporte do seu tempo permitiam. Procurou saber, pessoalmente, das demandas locais. Com ele, Rondon ligou o Rio de Janeiro a Mato Grosso e a Amazônia por linhas telegráficas, e criou o Serviço Nacional de Proteção ao Índio.
Nos vinte anos seguintes o governo dedicou-se de fato aos interesses republicanos. Foram construídas Brasil afora mais de 6.000 km de estradas de ferro, usinas siderurgias e de energia elétrica. A seca no nordeste, esquecida desde os tempos do império, voltou a merecer atenção. Esse foi o período dos mineiros, além de Afonso Pena, Delfin Moreira, Wenceslau Braz e Arthur Bernardes, do fluminense Nilo Peçanha, do gaúcho Hermes da Fonseca e do paraibano Epitácio Pessoa.
Em 1926 outro ex-governador paulista voltou à presidência da República. Era conhecido por construir estradas. Enquanto governador. Como presidente construiu apenas uma, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis. Dizem que para satisfazer o seu hobby: praticar rali, nas cercanias da capital federal.
Após 30 o Brasil mudou. Com o gaúcho Vargas a sociedade se viu contemplada com as leis sociais e trabalhistas que ainda vigoram com poucas alterações. Nasceram a Petrobras, a Vale do Rio Doce, a CSN, a CHESF, entre outras. Mato Grosso, por exemplo, recebeu obras importantes, inclusive os primeiros projetos de assentamento e reforma agrária, na parte sul do Estado. Dutra, o cuiabano, não fez um governo expressivo em obras, mas iniciou a construção da rodovia que leva o seu nome, ligando o Rio a São Paulo, e a hidrelétrica de Paulo Afonso.
JK, o bom mineiro, dispensa comentários. Suas realizações são incomparáveis. Merece, realmente, o título de maior brasileiro de todos os tempos.
Se não é confortável registrar os bem feitos do império, o mesmo se dá com os do regime militar. Não se pode, entretanto, deixar de reconhecer o trabalho realizado, principalmente pelos dois últimos. O gaúcho Ernesto Geisel promoveu a grande obra de incorporação do cerrado à agropecuária brasileira. O carioca João Figueiredo asfaltou boa parte das estradas de integração nacional construídas por Juscelino. Os dois tiveram o mérito de reconhecer que era preciso devolver o governo ao povo brasileiro.
Depois, com Sarney, herdeiro de Tancredo, aconteceu a institucionalização da nova ordem jurídica. Com Collor, apesar dos pesares, a abertura do mercado. Com Itamar, o plano de estabilização econômica. Com FHC o oba oba. E com Lula, o maior movimento de ascensão social da história do Brasil.
Agora, no momento do voto, a hora da decisão. Escolher um governo republicano de verdade ou um manda-chuva de província a serviço das elites e dos oligarcas de S.Paulo. Subir ao monte ou descer a serra. Eis a questão!

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