20/08/2010

Leticia Furquim

Corrupto: sem segunda chance

Leticia Furquim é advogada em Cuiaba

Na semana passada, um amigo que é advogado me disse que estava trabalhando para ingressar com um Habeas Corpus junto ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso para tentar retirar da cadeia um homem. O acusado cometeu um crime, que foi parar atrás das grades. O ato ilícito: furtou pouco mais de um quilo de carne. De repente, porque a peça seria uma picanha.
Fico imaginando o tamanho da ‘periculosidade’ que este homem deve proporcionar para a nossa sociedade. Será que ele não mereceria uma prisão perpétua ou mesmo uma pena de morte? Onde, claro, a família pagaria o preço da bala. Acho, inclusive, que este homem não pode viver mais em nosso meio, já está contaminado com o vírus da criminalidade.
Isso, é apenas alguns dos milhões de casos que acontecem todos os dias nas nossas cidades. A lei implacável. O erro talvez tenha sido porque o suspeito tenha na pele a marca de alguns dos Pês (Pobre, Puta ou Preto). Infelizmente, esse é o retrato que temos do Brasil quando atrocidades como essas acontecem, levando-nos a pensar o tamanho do abismo que existe entre um cidadão comum e alguém que detém um poder político.
Agora, fico imaginando o que aconteceria se uma pessoa passasse a mão em quase 10 milhões de reais. Dinheiro público desviado. Mais de vinte pessoas envolvidas. Já pensou quantas peças de picanha não daria para comprar com essa quantia? Vixe, faltaria espaço para os números na calculadora.
Parece que roubar dinheiro público hoje no país é algo normal. Pelo menos, não se vê notícias como essas nos jornais do país. Roubar picanha dá mais ibope, e mais risco de ver o sol nascer quadrado.
E se o roubo for praticado por algum político, aí sim, o processo criminal se torna mais difícil, demorado e muitas vezes esquecido. Vale lembrar que, apesar disso acontecer com freqüência, ainda assistimos de forma esporádica homens públicos sendo alvos de sentenças judiciais.
Mas, ainda assim, estamos longe de termos a sensação de justiça quando ficamos sabendo que um político desviou dinheiro ou está envolvido em alguma falcatrua. Em muitos dos casos, são eles os mentores ou chefes das quadrilhas.
E, o mais engraçado! Sempre que uma investigação vem à tona, o que é mais comum se ouvir de determinados políticos. “Isso é perseguição política”. Quer dizer: o cara rouba, desvia dinheiro, usa em campanha e ainda assim é perseguido politicamente pelo Ministério Público ou por algum juiz que teve peito de mandar fazer o trabalho que lhe é devido.
Nestas eleições, um candidato a deputado estadual em Mato Grosso, está se vendo obrigado a deixar a disputa porque teve o seu nome envolvido em um escândalo. Até o momento, vamos com calma nesta hora, o sujeito é suspeito e não houve condenação e o processo está longe de ter sido transitado em julgado (quando não há mais recurso e é uma sentença final). Ele pensou bem, a direção da Legenda conversou com ele e parece que o postulante não deve seguir adiante.
Menos mal. Pelo que se sentiu, este retrocesso deve ter ocorrido em algum momento de lucidez. O que quero dizer é que, caso o mesmo tenha envolvimento comprovado e condenado pelo Poder Judiciário deste país, ele não vai ter ‘foro’ privilegiado para responder por tais acusações. Isso sem contar, claro, que primeiro teria de passar pela aprovação das urnas. Mas isto, já seria uma outra história.
Este, pelo menos, teve o discernimento do que é dentro de uma razoabilidade sair antes que as coisas não ficassem bem. Nem todos ou alguns pensam desta forma. Um outro candidato neste processo eleitoral, a deputado federal, deu às costas paras essas denúncias e toca sem o menor constrangimento a sua campanha. Como disse acima, o caso está sendo investigado e nada está concluído de forma total. Mas as provas encontradas pelo Ministério Público Federal são bem robustas e até o momento levam a crer que houve crime. Desvio de dinheiro e formação de quadrilha.
É por meio deste texto que peço encarecidamente que ao votar pensem bem em quem vão eleger, pesquisem e fiquem de olho em seu candidato. Não eleja ou reeleja político que tem compromisso com a corrupção, com o crime organizado. Esse tipo de gente no poder é um câncer, que mata devagarzinho os sonhos do nosso povo.
Voltando ao assunto do meu amigo. Ele me disse que conseguiu, junto ao Tribunal de Justiça, a liberdade do cliente dele que foi acusado de furtar carne.


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