ARTIGOS
24/02/2010
A Sensibilidade no Universo Masculino
Emerson de Arruda
Durante a trajetória de várias gerações o homem sempre foi visto como uma criatura de batalhas, senhor de uma natureza rude e guardião insensível do seu próprio mundo. A ele foi dada a nobre missão de conduzir a sua família, cuidando de seus filhos com carinho, produzindo a felicidade para o coração da sua amada esposa e obtendo os elementos necessários para sobrevivência do seu pequeno rebanho.
Nesse longo processo histórico-cultural, uma idéia muito antiga que sempre exerceu e provavelmente ainda exerce certo domínio no imaginário de muitos homens, é a de que toda a estabilidade da família depende exclusivamente da postura segura, corajosa e destemida da figura masculina. Em virtude dessa responsabilidade, desde pequenos meninos acabam ouvindo a velha frase: “... homem que é homem não chora...” advinda dos lábios de uma geração insegura, cujos resquícios estão cravados na história emocional da nossa sociedade.
Diante dessa realidade cultural no universo masculino, tornou-se absoluta a idéia de que a fragilidade e a carências da alma humana são sinônimos de fraqueza e vacilação comportamental; interferindo de alguma forma na construção ontológica que o próprio homem tem si mesmo. Essa visão fez com que muitos homens perdessem a capacidade de abrir seus corações e confessarem os seus maiores temores, sem medo de serem felizes apesar de seus limites.
Hoje, o que tem sido efetivamente real é a verdade de que na busca pelos seus sonhos o homem deu ouvidos ao ensino de que ele não deve manifestar a sua insegurança, pois essa manifestação seria a comprovação irreversível de sua fraqueza existencial. Esse pensamento criou uma geração masculina isolada e desconfiada dos seus próprios sentimentos. Por isso, dificilmente encontraremos homens reconhecendo o medo de não conseguirem realizar a fascinante tarefa de amar a sua família com qualidade; revelando o temor de não conseguirem os meios legítimos que garantam a subsistência daqueles que dependem do seu labor diário para “comer”, “vestir” e “beber e tantos outros medos que habitam no sótão dos seus corações.
Diante desse dilema masculino nascem algumas indagações: Haveria de fato uma diferença tão enorme entre as carências da feminilidade e da masculinidade? Ou ambas, apesar de suas particularidades, são tão iguais, ainda que não se perceba com facilidade? A resposta é sim. Homens e mulheres passam pelas mesmas crises do coração na rotina da vida. No fim, ambos são seres de carência, frágeis, que precisam compartilhar seus conflitos sabiamente, buscando respostas que promoverão a tranqüilidade e a felicidade relacional.
O grave problema no final de toda essa constatação é que o silêncio e o isolamento sentimental têm produzido uma espécie de embrutecimento no coração masculino; por isso, muitos sofrem calados em suas cavernas e não conseguem traduzir esses sentimentos intensos, como o homem fictício da obra de Lya Luft fez ao derramar-se numa canção: “... Que quando eu saio para o trabalho de manhã ela se despeça com alegria, sabendo que mesmo longe eu continuo pensando nela. Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza e de ternura, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela minha parceira, não minha dependente nem meu juiz. E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco consciente ou inconscientemente, ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz, menos solitário, e muito mais humano.”
No universo masculino, palavras como: fragilidade, medo, sensibilidade, limitação precisam ser evidenciadas no cotidiano, pois homens são seres humanos em busca de respostas para as dores do coração, mesmo que eles não tenham a coragem de revelar.
Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, pós-graduando em Educação Infantil e Letramento, mestrando em Educação pela UFMT e professor de Filosofia e Antropologia da Educação na Faculdade EDUVALE.
Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaciara, teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de Filosofia da Educação, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano e mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/ Campus de Rondonópolis.









