ARTIGOS
01/02/2010
A Missão de Educar Filhos
Emerson de Arruda
Todas as vezes que leio as estórias infantis da pequena personagem Mafalda do escritor argentino Quino ou analiso os vários livros que tratam da construção da personalidade da criança percebo que a missão de caminhar com nossos filhos é muito mais difícil do que imaginamos.
Contemplamos diariamente milhares de pais batalhando em seus empregos, sacrificando sonhos, acordando cedo, lutando de maneira aguerrida, a fim de dar condições dignas para que os seus filhos desfrutem de uma realidade melhor e alcancem o sucesso.
Por isso, podemos ver meninos e meninas consumidos por uma rotina estafante, (aulas de inglês, francês, computação, balé, escolinha de futebol e etc.) preparando-se para a disputa que o mercado de trabalho nos impõe nessa era de darwinismo social.
É nesse contexto de rotina intensa que o relacionamento entre pais e filhos perde a sua verdadeira essência. Ao focalizar apenas a preparação profissional para disputa capitalista no futuro, muitos pais acabam esquecendo de investir na formação emocional ou existencial de seus filhos. A ausência dessa formação existencial que se dá na história social de cada indivíduo tem produzido seres humanos frágeis e instáveis no campo da emoção. Pessoas que apesar de terem a formação intelectual nas várias áreas do conhecimento, não foram educadas para conviver socialmente com o mundo e com as derrotas que vamos enfrentar em nossa peregrinação.
O segredo para o sucesso de nossos filhos passa pela transformação e valorização de algumas atitudes, que nós pais, esquecemos por conta do nosso ativismo. Ações que ficarão gravadas nos corações dos pequeninos e que não serão apagadas com o tempo. Dentre elas citamos algumas:
A habilidade de contar histórias. Crianças são seres marcados pela ficção, pelo o faz de conta e por isso amam ouvir estórias onde elas podem visualizar e criar mundos repletos de personagens, castelos, ruas, princesas, dragões, lobos, bruxas e reis. Pouquíssimas vezes os pais tiram tempo para ler com seus filhos, eles não contam estórias, não conseguem compreender que por detrás de cada livro podemos comunicar um ensino, talhando o ser que cresce junto de nós. Através dos contos infantis podemos ensinar princípios morais universais que aos poucos vão contagiando aqueles que estão sob nossa responsabilidade.
A habilidade de brincar. Por incrível que pareça, uma grande parcela de pessoas ainda não compreende a importância do lúdico ou do ato de brincar na vida dos seres humanos. Através dos jogos, cantigas, recortes, cirandas e tantas outras ações lúdicas criamos elos, que lançam limites, responsabilidades, liberdade e dinamismo; princípios que ajudarão na construção de homens e mulheres saudáveis no campo da felicidade. Muitos pais não encontram tempo em suas agendas para correrem nas praças, recortarem revistas, cantarem canções e brincar de pique – esconde com os seus filhos. A transcendência que neles habita os impede de se relacionar num contexto onde as mascaras desaparecem e ressuscitamos os meninos e meninas que habitaram um dia em cada um de nós.
A habilidade de crer. É impressionante como existe uma parcela muito grande de pais, que não se preocupa com a espiritualidade de seus filhos. O ceticismo familiar habitado em muitos lares tem roubado a capacidade das pessoas de crer naquilo que os nossos olhos não conseguem ver. Não podemos esquecer que além de um ser racional, social, cultural, educacional, histórico e biológico, o homem também é um ser espiritual, e como tal, possui carências que transcendem as explicações racionalistas de uma geração consumida pelo ateísmo.
A história da humanidade tem demonstrado que o senso do divino e a semente da religião estão plantados na alma humana. E que independente do que evolucionistas, ou discípulos de Richard Dawkins possam afirmar, nunca conseguiremos apagar a espiritualidade humana, pois ela é inata à alma daqueles que foram criados pelas mãos do Altíssimo.
Desta forma, a maioria dos pais precisa entender que apenas o investimento social, educacional, intelectual não são suficientes para o sucesso de seus filhos é necessária a formação espiritual. Investir na verdadeira espiritualidade é o grande segredo para a formação de seres humanos conscientes, que amam a Deus e o próximo.
A grande verdade que todos já sabemos e experimentados é a de que caminhar com os nossos filhos é uma missão muito difícil, requer de todos nós a habilidade e a humildade de compreender, que algumas atitudes desvalorizadas por nós mesmos, falam muito mais alto, do que os investimentos realizados apenas na formação profissional e intelectual de nossas crianças.
O problema começa em nós e o resultado mais desastroso desse processo é que indivíduos educacionalmente disformes irão gerar outros indivíduos símiles, como que em cadeia produtiva, visto que um ser ontologicamente mal formado tende a produzir em cadeia outros seres com o mesmo caráter.
O nosso desafio é o de romper com toda uma estrutura criada por vários pressupostos que continuam regendo a concepção familiar contemporânea e ter a coragem de reconhecer que talvez, os clássicos da psicologia, pedagogia, psicanálise, sociologia e filosofia falharam em alguns aspectos, e isso é natural, pois não existe nenhuma ciência absoluta e perfeita, elas se renovam a cada dia.
Por isso, comecemos a mudança em nossa vida contando estórias, brincando, soltando pipas, e acreditando intensamente, de que apesar dos nossos erros, falhas e medos Deus nos ajudará em nossa missão. Ele sabe muito mais do que nós, como é difícil cuidar de filhos que facilmente se esquecem de valores simples, mas importantes para construção de um novo céu e uma nova terra.
*Emerson de Arruda é teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de filosofia da educação, e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade Jaciara – Mato Grosso.
Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaciara, teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de Filosofia da Educação, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano e mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/ Campus de Rondonópolis.








