ARTIGOS
15/01/2010
A arte de filosofar
Emerson de Arruda
Em seis de julho de mil novecentos e trinta dois Cecília Meireles lançava no Jornal Diário de Notícias, a crônica: Vida Prática. Dentre as várias idéias desenvolvidas pela autora no campo da educação, a frase: “... o educador comove-se com a incerteza da definição humana...” apontava para o grande desafio dos estudiosos em construir a identidade do ser humano, uma vez que o mesmo é dotado de uma variedade de atributos.
O filósofo Pascal ao analisar essa identidade constatou que na diversidade desses atributos, o atributo da racionalidade evidencia a marca da singularidade humana. Foi ele quem disse que o homem é “um caniço, um caniço pensante...” e sob esse pressuposto revelou a natureza paradoxal desse ser: “... o homem como um caniço...” é dotado de fragilidade, simplicidade; mas ao mesmo tempo, ele é“ ... um caniço pensante...”marcado por racionalidade e dinamismo.
Dotado com essa intelectualidade, o ser humano transcende os limites do reino animal e esse transcender foi definido pelo teólogo protestante do século XVI João Calvino, como a própria imagem de Deus impressa na criatura, o que fez dela, a coroa da criação.
Quando os nossos olhos caminham pela história da humanidade contemplamos a habilidade do pensar humano através das várias manifestações culturais, ratificando mais uma vez, o estado nobre da humanidade.
Nesse processo de desenvolvimento intelectual a filosofia sempre exerceu uma influência transformadora, modificando a cosmovisão dos que foram tocados por ela. Por isso, podemos afirmar que a mudança de uma sociedade passa pelo regaste do pensar filosófico de um povo e essa capacidade de filosofar nos permite ver além do provincianismo que nos consome.
A prova incontestável de que a filosofia promove mudanças essenciais onde ela está inserida pode ser vista no seu próprio nascimento na Grécia e especialmente na cidade de Atenas.
Nesses ambientes as pessoas viviam segundo a tradição mitológica, suas palavras e atitudes eram governadas pelos conceitos mitológicos, que eram a regra de fé e prática naqueles dias.
Foi nesse cenário que o pensar filosófico surgiu questionando os preceitos mitológicos estabelecidos como verdades absolutas. E aos poucos, aquilo que era inquestionável passou a ser a avaliado com um teor de criticidade mais intenso pelos cidadãos gregos.
Surgiram novos paradigmas, e pensadores como Parmênides, Anaxímenes, Sócrates, Platão, Aristóteles e outros mais participaram da reconstrução de um novo mundo.
Se o nosso sonho é o de reconstruir a história da nossa comunidade local é necessário que resgatemos a habilidade de pensar filosoficamente. O problema é que muitas pessoas ainda possuem a visão de que a atitude filosófica pertence ao mundo dos intelectuais ou ao mundo dos malucos-belezas, que navegam no Mundo de Bob, e não caminham com os seus pés no chão.
Por conta desta postura, a filosofia foi perdendo sua importância o cenário cultural do nosso País e de tantos de outros, de tal forma, que temos uma geração de seres humanos que só consegue pensar de maneira técnica, pois infelizmente, não foi formada para questionar o seu mundo utilizando a crítica sensata e inteligente.
Essas pessoas tornaram-se apenas peças do grande relógio da domesticação ideológica política na República Tecnicista Brasileira. E, enquanto isso, uma minoria decide o que se deve, como, quando e onde pensar.
Como poderíamos mudar essa realidade? A resposta a essa indagação remete-nos a uma avaliação do papel das universidades brasileiras.
As universidades precisam compreender que a grande responsabilidade de mudar esse quadro está sobre os seus ombros; pois são nelas que caminham cerca de quatro anos ou mais, universitários que se tornarão os profissionais que hão de conduzir a história econômica, cultural, social, educacional e ideológica da nossa pátria amada.
Nesse cenário e período professores universitários dotados com um fazer pedagógico dinâmico deveriam plantar sonhos e resgatar a arte de pensar, como o filósofo Sócrates fez no passado com os seus discípulos, despertando neles, o ser filosófico que reside em cada pessoa. Fazendo-os sair da caverna, como no Mito da Caverna de Platão.
Com isso, não estamos desvalorizando o sistema educacional que tem como base a educação infantil, o ensino fundamental e médio.
E muito menos levantando uma bandeira de que o fazer pedagógico de professores que atuam nesses ciclos não tem um papel importante, pelo contrário, sabemos do papel importante que eles realizam.
Todavia, no cenário universitário a ação epistemológica abre novos caminhos, os limites impostos pelo ensino médio desaparecem, nasce e se constrói mutuamente, a nova independência existencial e ideológica, que é talhada de maneira mais intensa pelas vozes dos mestres nesse contexto acadêmico. Essas vozes falarão mais alto do que a própria educação informal que foi e continua sendo construída na caminhada histórico-social de cada estudante universitário.
Somos desafiados todos os dias a romper com a domesticação ideológica, que tem conduzido a vida de muitos, mostrando que arte de pensar filosoficamente é uma grande ferramenta nesse processo de reconstrução da comunidade local. Filosofar como disse o teólogo contemporâneo Hermisten M.P. Costa é ter “a consciência de que estamos de forma imperativa e incondicional, em busca de respostas, tentando interpretar e explicar os fenômenos.”
*Emerson de Arruda é teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de filosofia da educação, e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Jaciara – Mato Grosso.
Emerson de Arruda é pastor da Igreja Presbiteriana de Jaciara, teólogo, psicopedagogo clínico e institucional, professor de Filosofia da Educação, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano e mestrando em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso/ Campus de Rondonópolis.









